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O Canto Humano é uma Bênção
Em sentido bíblico a bênção é um poder, uma força, que se transmite entre duas pessoas; por isso o pai dá a bênção ao filho primogénito para que ele se torne adulto consciente. Mas esta bênção era única, só podia ser dada uma vez.
Quando digo que o canto humano é uma bênção quero dizer que ele transmite uma força de uma pessoa, a que canta, para outra pessoa, a que escuta. Com uma diferença muito importante: esta bênção pode ser repetida uma e muitas vezes.
Carla Baptista Alves, usando a sua bem-educada e magnífica voz de Soprano Lírico, criou uma bênção para crianças – e talvez também para adultos.
Ouvindo-o, na sua esplendorosa diversidade de temas e de autores, sentimos a unidade da voz, que predomina sobre o som instrumental, e nos transmite uma serenidade e uma paz que vão até ao mais íntimo das nossas auto consciências.
É uma bênção? Sim é uma bênção, em sentido metafórico. Sabemos hoje que o som ritmado cria, muito precocemente, nas crianças que o ouvem - talvez já durante o tempo de vida no seio materno - redes neuronais específicas, que irão influenciar o trabalho cerebral ao longo de toda a vida. Um cérebro “construído” a partir de estímulos auditivos é um cérebro mais sensível e emocional do que os chamados cérebros visuais, nos quais as primeiras redes neuronais funcionais são constituídas a partir dos estímulos visuais.
Então, o uso destes sons vocais humanos, que se desenvolvem em melodias de grande beleza, como parte do processo de inculturação das crianças, desde muito cedo no seu desenvolvimento e em oportunidades especiais como para induzir o repouso e a calma, vai funcionar como a transmissão de uma força que vai direita à intimidade da consciência perceptiva e aí exerce o seu efeito.
É, de facto, uma bênção.
Que muitos, por esse mundo fora, a possam receber é o meu desejo e o meu voto.
Estaremos, assim, a contribuir para criar seres humanos mais sensíveis à beleza, ao amor e à paz. Deles a humanidade precisa urgentemente para que se salve da ameaça terrível de uma extinção em massa.
Daniel Serrão, M.D.,Ph.D. Professor Jubilado da Faculdade de Medicina Membro do Comité de Bioética do Conselho da Europa Membro Titular da Academia das Ciências de Lisboa.
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